sábado, 10 de janeiro de 2004

Levante

Não havia férias sem aquelas ondas. Desde sempre aguardo ansiosamente por aqueles dias de agosto em que se levanta o sueste. Ainda hoje. Naquela ‘minha’ praia quase deserta, ou nesta mesma praia cheia de gente, os dias de Levante eram os melhores, os mais festejados. Miúda, naquele tempo, ou neste, avançava cautelosa, contudo destemidamente, estudando a cadência das ondas, observando o seu rebentar, procurando a melhor entrada… e aí ia eu… ao seu encontro, mergulhando-a, rompendo-a, voltando à superfície com os cabelos escorrendo pelo rosto e pelas costas e com um sorriso molhado, rasgado de satisfação. Ali ficava longas horas, saltando por cima delas – a sétima era a melhor, gosto das ‘grandes’ -, mergulhando quando se aproximavam com a espuma na sua crista, nadando nas breves pausas, sempre atenta ao seu ritmo, ou boiando, lá, mais longe, ouvindo a sonoridade surda do mar… no seu interior… no meu interior…no corpo, na alma.
Enrolanços poucos, e no início, mas lembro aquela sensação. A primeira vez, debatemo-nos, queremos contrariar aquilo que é incontrolável. Depois aprendemos que é mais sábio deixar-nos ir ao sabor do seu turbilhão, obtendo mesmo um prazer estranho nesse movimento poderoso que agarra em nós e nos leva até… à areia molhada. Não lutar contra aquilo que não podemos controlar, porém, e apesar disso, ter a consciência de nós, sentirmo-nos, e às forças, aos corpos que actuam sobre nós, connosco.
Era, é, um dos melhores momentos das férias, o sueste, naqueles dias em que o céu ganha tons acinzentados confundindo-se no horizonte com o mar, em que a praia era dual, pela barreira alta construída pelas vagas no areal, e as ondas… as ondas… as ondas…
Momentos de solidão, de entrega, de comunhão… de um qualquer esquecimento, de uma consciência sensível.

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