terça-feira, 10 de outubro de 2006

Cão ou gato?

Sentados à mesa, já não sei a que propósito, surge a clássica questão: preferes o cão ou o gato? A resposta indicará, à boa maneira da caracterologia dos anos sessenta/setenta, a identificação em termos de personalidade. Ou a preferência em relação aos outros. Cada um que reflecta sobre si mesmo. Dos porquês. Das suas relações. Das suas anti-patias e filias.




Eu tive uma pastora-alemã, linda. - gosto sobretudo de cães pastores (guardadores), grandes e peludos, fofos. Leais, ternos, mas não lamechas. Que saibam (como os animais sentem e sabem) rosnar ao "dono"(*) se este é injusto. Ás vezes irrita-me a docilidade, ou antes, uma certa submissão dos cães - irem ao encontro quando o outro não merece.
Tenho agora uma gata. Siamesa. O mais canino dos gatos. Sempre tive gatos quando, há muito, muito tempo, vivia em casa dos meus pais. Gosto muito de gatos. Esta gata é especial (não porque é "minha", mas porque a conheço e a amo), é afectiva, meiga, arisca, amua quando eu não lhe ligo o suficiente, mas não fica ressentida, é autónoma e não me liga nenhuma quando não está para aí virada. E eu respeito esse modo de ser. Mas também ralho quando entendo que devo. Por isso, convivemos bem. E respeitamo-nos. Adoramo-nos quando é tempo de amar, estamos sós quando queremos estar sós. E falamos uma com a outra, muito fala ela!. (agora está aqui, a meu lado, dormindo)
Muita gente diz que gosta dos animais, mas no que respeita a gostarem daquele animal, com aquela "personalidade", isso é uma outra história. Dos gatos é paradigmático, à primeira vista "que fofos, que queridos", mas quando vem o primeiro arranhão, ou quando ele não vem ao bichanar, pensa-se logo "os gatos só fazem aquilo que querem", "os gatos não gostam dos donos", como se fosse um defeito ou como se fosse um sinal inequívoco da falta de afectividade dos gatos. Realçando imediatamente a diferença em relação ao cão - mais um esterótipo. Em vez de se tentar compreender, ao invés de ter a delicadeza e o respeito de tentar entender aquele ser, julga-se que se é dono. Como tal, o bicho deve corresponder / obedecer, em termos comportamentais e de personalidade, aos desejos do seu "dono".
Há gente que não merece os seres que tem a seu lado. Gosta-se da aparência do bicho, ou daquilo que ele significa para si mesmo. Não amando, na realidade, o que eles são... Não amando para além de si próprio.

(*) Esta palavra 'dono' é repugnante!!!!

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