sábado, 31 de julho de 2004

manhã de sábado

Sempre quis adormecer como ontem à noite. Sempre quis despertar como hoje de manhã.
Vindo do lado de fora da janela, o chilrear dos pássaros, o azul matinal, quente. Cá dentro, o aconchego. Não é só no Inverno que sabe bem.
Somente os gatos ainda não se harmonizaram de todo. (pois é, as “férias” do Gaspar têm-se prolongado).

sexta-feira, 30 de julho de 2004

sempre... apesar dos dias...

Há cumplicidades que nunca se perdem... nem perderão.

quarta-feira, 28 de julho de 2004

no regret

Se fosse hoje, também eu, não teria feito muitas das coisas que fiz. Há um dilema entre sentir que ainda bem que as fiz para poder ser desta forma e, um lamentar pelas coisas que ficaram por fazer, por viver, enquanto estava a fazê-las aquelas outras. Arrependimentos? Não, não é disso que se trata, apenas por vezes um ligeiro pesar, ou um sentimento de desperdício de vida, ou ainda um 'pudor' de escolhas menos certas. Hoje, permanecem em mim, a compreensão dos motivos e do enquadramento de tais situações, um entendimento de que apesar de tudo foi um caminho que me levou a este ponto aonde (me) observo, uma vontade mais firme de fazer escolhas de vida mais consonantes. Em cada momento. Permita-me eu a mim própria.
E olhar sempre através de um sorriso...

terça-feira, 27 de julho de 2004

O fogo e a praia

Estar na praia sob um sol escaldante encoberto pelo fumo de fogos que lavram a alguns quilómetros. O ano passado no barlavento algarvio; este ano no sotavento. O cheiro do fumo, as cinzas que caem nas areias, nas águas do mar, tornando-as oleosas da resina transportada. Folhas de aloendro queimadas, arrebatadas, que voaram distâncias para nos tornar mais visível o inferno de alguns enquanto nós descansamos calmamente na praia. Situação absurda. Como podemos assistir de um modo tão impávido? Aqui e em tantas outras condições. Onde está a nossa revolta, a nossa solidariedade, o nosso contributo? Achamos mesmo que não podemos fazer nada? Que este mundo não é o nosso?

Imagem de: James Kaler, Astronomy Department, University of Illinois

segunda-feira, 26 de julho de 2004

há pequenos sonhos que nos vêm de tempos que nem conseguimos definir. pequenos porque apesar de não serem imprescindíveis, os ‘alimentamos’ carinhosamente, que fazem parte de uma qualquer imagem que nos faz sorrir, que faz parte de um ideário adolescente que não concretizámos. são sonhos que se confundem com desejos. quando de repente, eles se concretizam, inesperadamente (embora sempre esperados, no fundo), ainda para mais, envoltos numa espécie de manta onírica, beliscamo-nos? sorrimos? acreditamos que “finalmente!”? sem dúvida, permanecerá… em mim… num cantinho onde guardo também a presença do senhor de barbas brancas que costuma aparecer a 25 de dezembro… ou noutro dia qualquer…

quarta-feira, 21 de julho de 2004


Aonde repousam as palavras neste mar, neste luar?

segunda-feira, 19 de julho de 2004

Dia azul

Estavam sentados a cerca de metro e meio um do outro. Liam. O sol deixava o seu calor abafado atrás das paredes. Lá dentro, uma temperatura agradável, cheio de luz azul que entrava pelas janelas. Levantou o olhar e pousou-o no seu rosto. Absorto, ausente de qualquer realidade que não fosse aquela, entre muros. Suave, como se a pele fosse carinho. Sorriu. E talvez fosse esse gesto, quase imperceptível, que o fez também levantar os olhos. Encontrando-se algures, não a meia distância, mas em cada um deles. Sorriram. Tranquilos. Intensos.
E retomaram a leitura. Dessa vez.

sábado, 17 de julho de 2004

mutações

Escreveu
a terra tremeu…

riscou


as árvores
desprenderam-se

irrequietas


alaram-se


a terra estacou
branca

sexta-feira, 16 de julho de 2004

odores & humores

saio para comprar pão. no jardim da casa ao lado, um homem rega. atraso o passo. inspiro. aquele cheiro a terra molhada.
no café-padaria. emprenha-se no ar o sabor a pão acabado de fazer. as cores do pão. o tostado. o mais claro, do mal cozido.
não resisto. vou à secção dos bolos. uma bola de berlim. com creme, claro. nunca, até ao ano passado, tinha apreciado o dito bolo. foi durante as férias, na praia, ao ver passar pelo areal, o sr. "Cavaco das bolas" que ganhámos o bom costume de as comprar. Como sabiam bem depois de um belo banho! E eram saborosas, cheinhas de creme. (no último fim de semana, hummm, matei as saudades, embora não fosse o sr. cavaco a vendê-las). Mas regressando ao presente... a empregada atende-me. Já pela segunda vez, dou comigo a constatar e a pensar isto. É irritante, porque nunca sabemos o que nos vai surgir, aquelas pessoas que mudam constantemente de humor. Um dia, são sorrisos, outro carrancudas, parecendo que 'todos lhe devem e ninguém lhes paga'. Claro que se compreende as variações de humor, nem temos de estar bem dispostos todos os dias, mas podemos tentar não descontar para cima dos outros, ou mal falar entre dentes. Paciência!!! vou saborear a minha bola de berlim.

terça-feira, 13 de julho de 2004

Um dia julgámos que estar com o outro era esquecermo-nos de nós… para que queríamos a nossa própria presença senão para tornar a vida de outro mais viva, mais presente em nós próprios? Perdemo-nos em nós próprios, de nós próprios… caminhos sem sentidos… tropeçando em pedras, quase nos tornando insensíveis à dor, de tanto que doía. Ausência de nós mesmos. Sorrisos havia-os, apenas morriam nos lábios, porque era lá que nasciam, na superfície de um desejo insano. Deixou de ser alma. Deixou de ser corpo.
E no corpo nasceu alma. Ou talvez o inverso. Sabe-se lá. E ganhou corpo e alma. Alcançámos alma e corpo. E se há sorrisos, é porque nascem da alegria. E na sua falta, o olhar não é pelo outro. Apenas pelo outro. Para o outro. É com o outro. Presença de nós. Inteira. Olhar através do outro. Para olhar o mundo. E sermos maiores do que nós.

segunda-feira, 12 de julho de 2004

Que belo fim de semana!

Depois de meses que bom é sentir nos pés as areias da praia, avançar para a beira-mar sentindo o corpo cálido pelo sol, pelo toque daquele corpo quente e vivo, e entrar nas águas um pouco frias, mesmo sentindo os arrepios provocados pelo vento que varre a praia até ficar quase sem rastos. Um passeio prolongado, de descoberta, de partilha de passos passados, de reencontro de pedras e conchas, de dunas e molhes, pisando areias molhadas daquele mar que nos envolve cadenciadamente. Sentar numa esplanada, sem tempos, estando, falando quando as palavras urgem, desfrutando o vaivém de pessoas, sorrindo, porque estamos felizes. E aqueles jantares saborosos, lentos, tranquilos, feitos de disponibilidade para a vida. Depois mais um passeio, ruas movimentadas em mansos caminhares, sem rumo definido, olhando aqui, além, ouvindo vozes que se aproximam para logo se afastarem, por vezes com rostos mirados, outras, apenas as vozes. O som de férias que ecoa na urbe balnear. E ainda, o silêncio do sono, tendo apenas por vizinhos, os pássaros, um cão ao longe, ou mesmo um galo que desta vez não cantou, ou foi o sono que o emudeceu. Por vezes a poesia sai das palavras e preenche a vida. Os nossos pequenos momentos de vida.
A distância, sim, pareceram tão longínquas, decisões, desilusões, demissões e mortes. A morte de uma grande pessoa. De uma Mulher que transbordava vida quando falava, porque acreditava. porque sonhava.

quarta-feira, 7 de julho de 2004

A minha gata e o Gaspar

Desde que tinha um mês de idade, a minha gata nunca esteve em contacto com outros animais. Mesmo com pessoas é um pouco associal, não que agrida, mas não permite normalmente grandes contactos… é um pouco bicho do mato com os outros. Comigo é terna e meiga, mesmo mimada. Sim, dei-lhe mimo, muito, mas também se não o dermos a quem gostamos, vamos dar a quem? Dei-lhe mimo, mas também limites – anda por toda a casa e nunca partiu nada. Há 5 dias atrás, a minha gata teve uma grande surpresa… recebeu a visita, para passar umas 'férias', de um gato, o Gaspar. Preto, brincalhão, meiguinho, de vez em quando com uns repentes… Estava curiosa relativamente à reacção dela. O primeiro contacto, a cerca de dois metros, resultou em ‘bufadelas’ e eriçamentos.
O Gaspar, sabendo-se em território alheio, desviou o olhar, deitou-se, manteve obedientemente – que remédio! – a distância. Qualquer tentativa de aproximação era rechaçada com semelhantes e enérgicas bufadelas e rosnares. Pareciam dois felinos selvagens em interacção numa qualquer savana africana. E eu que não sabia que tinha esta ferinha em casa! Ao longo destes 5 dias, a distância entre eles tem-se vindo a encurtar… já os vi a cerca de 20 centímetros, por breves momentos, e quando a minha gata acha (julgo eu) que ele está mais confiável e mais calmo; mas esta situação dura pouco, logo ele ‘abusa’ e recebe um aviso bem sonoro da parte dela… e recua. Por vezes, como agora, ele olha-a ternamente (estarei a antropomorfizar demais?), quieto, paciente, como se aguardasse o momento em que ela finalmente o deixará brincar – não, não há problema desse tipo, o Gaspar foi, infelizmente para ele, castrado -. Segue-a perseverantemente, regulando a sua distância consoante o humor dela. Fica desolado quando ela o repele, tanto quanto ela ficou ao vê-lo apropriar-se dos seus sítios de estimação… como a minha cama. Ontem dei com ambos na cama… um aos pés, outro à cabeceira, a dormirem… grande vitória, para quem quase não dormiu nas primeiras horas, tal era a vigilância a que se forçava. Daqui a uns dias, o Gaspar vai-se embora. Eu vou ter saudades de o ter cá em casa… e a minha gata? sentirá saudosamente a sua falta? ou ficará feliz de finalmente poder reocupar todo o seu território?

domingo, 4 de julho de 2004

hoje é o teu dia especial, Amiga…

Talvez a amizade seja mesmo o estar apenas juntos, partilha e cumplicidades, por vezes silenciosa, outras, confidências. Aceitar e compreender. Ver livre o percurso do outro, sabendo que se está aí quando se precisa. E as despedidas nunca serão definitivas, apenas um até já, mesmo que durem meses ou anos. E ao sentirem-se saudades, elas são mitigadas por um tranquilizador estou bem. Ou, caso contrário, uma certeza de há sempre uma palavra, um gesto que acarinha. Um sorriso quando nos lembramos de pequenos momentos, dos dias e dos anoiteceres prolongados pelas conversas… pelo gosto distendido de estar, lentamente, descontraidamente, superficial ou profundamente.
Sendo-se, apenas. Nós e o nosso amigo.

sexta-feira, 2 de julho de 2004

incessante renovação

Em cada dia um tão minúsculo passo que parece que nada muda, ou pelo menos, tão pouco. De repente, olhamos, não para ontem, mas para muitos dias atrás, e as palavras já são diferentes, e as mesmas palavras nos ecoam tão distintamente, como novas. O olhar renova-se como percepção original. O sentir, apesar de serem os mesmos neurónios, músculos, tendões – serão mesmo? não, nem isso, se pensarmos na renovação celular – transmuta-se não apenas pelos, ou através, dos objectos/estímulos diversos, mas pela construção evolutiva de nós próprios.
Nem de propósito! Acaba de nascer a primeira filha de um ‘velho’ e bom amigo. Que tenha a sua bondade...

quinta-feira, 1 de julho de 2004

um dia especial?

Talvez hoje seja um dia especial, talvez não seja assim tanto. Talvez tenha aprendido, com os anos, ou ultimamente, que muitos dias – não todos – podem ser dias marcantes. Pode não ser apenas hoje. É preciso que sejam muitos hojes. Dias que marcam, dias que afectam, dias que acontecem devagar, outros mais velozmente, dias que surpreendem, dias em que a rotina é saboreada calmamente. Não importa sorrir apenas num só dia por ano. Que esse dia seja a continuidade, o aprender a estar que resulta de todos, de muitos dias anteriores. Um sorriso recebendo o dia de hoje, mais uns quantos que virão. Partilhando-o sempre.
Mesmo assim, sendo um dia tão especial como outros (sendo sincera ou talvez apenas emocional, é-o um bocadinho mais), daqui a um ano – gostava de fazer algo ainda mais especial.